2019
















2018











sem sorte no cassino
e outras pinturas
de Marcelo Pacheco




Douglas de Freitas
curador


Na história das civilizações, a matemática sempre desempenhou papel fundamental na evolução do homem. É a partir dela que o mundo se constrói, mesmo que de maneira intuitiva. Arquitetura, engenharia, e arte aplicada fazem uso da matemática para a construção de seus padrões, elementos, e possíveis regras geométricas para conferir às coisas formas com ideias de perfeição, de regularidade, de encaixe.

A geometria se faz presente no trabalho de Marcelo Pacheco. O artista realiza pinturas de óleo sobre tela, ou sobre madeira, onde um jogo de composição entre figuração e abstração é construído, onde a exatidão matemática de uma construção geométrica é elaborada, para logo depois ser desmontada através da pintura. A geometria surge como elemento estrutural em boa parte dos trabalhos, define limites, estabelece margens e grids para os elementos e acontecimentos do trabalho. No entanto, esses padrões criados pelo artista são uma geometria mole, construída sem rigidez, que por vezes se convertem em formas orgânicas, elementos arquitetônicos e paisagens.

Essa geometria imprecisa de Pacheco se molda a partir da geometria do mundo. Os elementos da cidade, como fachadas, portões, muros, janelas, toldos, padronagens de tecidos e artigos de origem popular, assim como representações prévias desses elementos realizadas por outros artistas, são pontos de partida para as pinturas. Desse modo, padrões de
estamparia e a paisagem da cidade misturam-se a elementos e tons das pinturas de Matisse, Volpi e outras referências consolidadas na história da arte. Na pintura Nesse mundo, por exemplo, o que se vê é um elemento compositivo de um dos afrescos de Giotto, que agora surge puro, emoldurando uma área vazia, sem nenhuma pintura além da base branca.

A tela em si é parte integrante da composição das pinturas do artista. Alguns trabalhos, além da moldura e da pintura de padronagens, recebem tachinhas nas laterais, as quais acabam por participar da composição. Em Sem sorte no cassino, uma série de elementos ocupa apenas a parte superior, e pouco mais da metade do trabalho é um chapado de um tom bege. Porém, as pequenas tachinhas na lateral ressaltam o movimento criado pelo padrão pintado e estabilizam o fluxo da composição na tela. Em outros trabalhos, a própria pintura é realizada em caixas de madeira já existentes coletadas pelo artista. Essas pinturas avançam da parede, como no caso de Estudo para bandeira (janela azul), onde elementos arquitetônicos e geométricos são pintados em uma caixa de madeira, como uma arquitetura contida em outra arquitetura.

Em um dos trabalhos mais recentes, a pintura se assume como escultura. Um fragmento de uma antiga janela recebe cortes e padrões de pintura através de intervenções do artista. Firmada em um cubo de mármore, ganha autonomia da parede e reverencia o pensamento escultórico de Brancusi, não apenas em sua Coluna infinita, mas também na própria maneira de pensar a escultura, onde a base é parte constituinte da obra, e não apenas suporte.  

Se estabilidade, arquitetura e estamparia se fincam na precisão matemática para existir, a matemática da geometria de Marcelo Pacheco é imprecisa. Ela se molda ao mundo, e é moldada por ele, em um jogo de estabilidade armada através do desmonte.

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English version

In the history of civilization, mathematics has always played a fundamental role in the evolution of men. The world builds itself on mathematics, even if it does so in an intuitive way. Architecture, engineering, and applied art make use of mathematics for the construction of its patterns, its elements, and of possible geometric rules, to confer things shapes with the ideas of perfection, regularity and adjustment.

Geometry is present in Marcelo Pacheco’s work. The artist makes oil paintings on canvas or on wood, in which a game of composition between abstraction and figuration is constructed, in which the mathematical exactness of geometrical construction is elaborated, to soon after be dismantled through painting.  Geometry appears as a structural element in many works, it defines limits, establishes margins and grids for the elements and events of the work. However, these patterns created by the artist are a soft geometry, built free of rigidness, that sometimes convert themselves into organic forms, architectonic elements and landscapes.

Pacheco’s inaccurate geometry is shaped by the geometry of the world. The elements of the city, façades, gates, walls, windows, awnings, fabric patterns and popular culture articles, as well as previous representations of these elements depicted by other artists, are points of departure for the paintings. Therefore, fabric prints and the city landscape blend with elements and hues from the paintings of Matisse, Volpi and other references consolidated in art history. In the painting Nesse mundo, for example, what one sees is a compositional element from one of Giotto’s frescoes, which now emerges in pure form, framing an empty area, without any other paint other than the white background.

The canvas itself is an integral part of the artist’s painting compositions.  Some works, besides painted frames and patterns, receive copper tacks on the sides, which end up participating in the composition. In Sem sorte no cassino, a series of elements occupy the upper part, and more than half of the work is made up of a flat beige hue. Nevertheless, the small tacks on the side highlight the movement created by the painted pattern and stabilize the flow of the composition on the canvas. In other works, the painting is done on found wood boxes collected by the artist. These paintings move forward from the wall, as with Estudo para bandeira (janela azul), in which architectonic and geometric elements are painted in a wood box, as an architecture contained in another architecture.

In one of the most recent works, painting comes out as sculpture. One fragment of an old window receives cuts and painted patterns through the artist’s interventions.  Fixed in a marble cube, it gains autonomy from the wall and pays tribute to Brancusi’s sculptural thinking, not only in his Endless Column, but also in the manner of conceiving the sculpture, in which the base is a constitutive part of the work, not just the support.

If stability, architecture and textile printing count on mathematical accuracy to exist, the mathematics in Marcelo Pacheco’s geometry is inaccurate. It takes shape in the world, and it is shaped by it, in a play of stability set up by the act of disassembling.


Douglas de Freitas
(curator)